A CHUVA, A PELE E O MAR
Alçam as velas! Atmosfera sideral.
Negra e suada pele que a fina chuva banha.
Alívio em mãos calejadas. Gotas de um irrealizável orvalho passeiam por nódulos da carne áspera.
Tormenta.
Impiedosa intempérie afoga os sons da labuta cativa.
Navio negreiro que não aporta.
Trabalha o corpo, trabalha a alma que a água lava. Navegam ondas em verdugo açoite. Maxilares impassíveis a fustigarem tantos sonhos…
Olhos rociados marejam narizes de asas largas.
Boca que amarga o fel das correntes.
E nunca mais serão insípidas as águas que escorrem por entre as frestas da madeira à mercê do vento.
Maresia já ecoa.
Burburinhos estrangeiros aportam. Mercadoria entregue.
—-
Texto: Sarah Amin
Imagem: Lara Vasconcelos / Roberta Félix / Diogo Braga
03.01.2011 - Cidade Solar
Em resposta a:

Foto: Bruno Reis
Vídeo: Lara Vasconcelos
07.02.2011
Cidade Solar - Brasil
Foto: Luciana Vieira (/luuvieira)
Audio: Lara Vasconcelos (Música: In the Back Seat, do Arcade Fire)
02.01.2011 - Cidade Solar
Repousei, a cabeça deitada na grama verde..
Lembro do sol caindo, derretendo
A noite devagar descendo
Suspiros me denunciando apaixonada,
A mão esquerda que eu estendi satisfeita
Encantada contigo.
Tanto eu quisera congelar tal cena
Contigo, tão lindo, me observando de cima
[O mundo girando, os nossos pensamentos se casando..!
E pra isso te fiz um poema cheio de rima
Que impressionantemente fixou nosso momento
É ele quem me faz lembrar
Aquele dia bonito com’um quadro
Em que viajamos o universo, lado a lado
Sem sair de nosso lugar
E sem problemas a nos cobrar
Tu, rindo, resolveste fazer uma fotografia
Eu, boba, bêbada de alegria,
Abri um sorriso que até hoje é só teu, feito pra se guardar
[Mas minha mão esquerda ainda jazia na grama
Vem um dia, tu me mostras o tal retrato
Me apareces com uma surpresa:
Cortaste-me o que era teu, o sorriso que te dera
— Este tu, de fato, guardaste.
Captaste o infinito físico que nos separava
E me unia a ti fortemente, de um jeito estranho, material
Cravado em minha pele
Espelhado em teu olho castanho
Presente em meu dedo anelar
Naquela tarde que caía.
E justo naquele dia eu te escondi as palavras que ora digo:
No auge da tarde, eu quis ser tua
Apenas, e pra sempre,
Tua, querido.."
—-
Imagem: Lara Vasconcelos
Texto: Maria Eugênia Maciel
01.01.2011 - Cidade Solar
Correspondências #6 - Tito
[TARDE COR-DE-ROSA] Dorme ao lado Dormimos todos Deitamos a tarde fora. E deitou-se sobre o dia Toda a tarde que renascia, enfim. —- 30.12.2010 - Cidade Solar
A leve verdade vespertina
Que jaz entre as flores
Róseas.
E entre os dedos se enlaçam
Mais dedos,
Mais e mais. Milhares as mãos.
E era calma e boa,
Leve e quente
Como uma mãe
Que nos acalma a dor
E embala o sono.
O pólen e o cansaço
E, já cansados,
Cansamo-nos do pesar.
Sentamos então -
Como outrora - à janela,
De modo que pudéssemos ver:
Cor-de-rosa.
Texto: Tito de Andréa
Imagem: Lara Vasconcelos
Correspondências #4 - Lucas

Tão perto do estalo
Oh, tão perto
dedilha-se a noite
o brejo, o pessoal,
o incerto.
nunca verás o límpido
foi-se o embrulho da madrugada.
lance presas
num verão escuro.
nunca sonhei em azul
assim como tu
sonhaste em devaneios
simples.
bolhas
água.
nunca
jamais
me mostrei
tão só.
fincado na velha taverna
de negros olhos e cabelos
me apareceu como turvo sol
olhou e olhou
sem se mexer
andou
no antiespaço.
tocou o vazio.
fez-se frio.
anticristo.
e não haverá lembranças.
e que se faça dor nas horas tardias
e se bloqueio teus lábios
em formas me desnorteio.
sinceros abraços malditos
por dentro sinto.
e se não mentes,
te afoga.
te sufoca até a nona dor.
enclausurado de fumaça,
sem lugares fixos,
para trás ficou.
línguas
gestos
rostos
sonhos
de alguma forma, o que vejo agora,
tem um brilho secundário.
em oceanos cinzas
deveríamos navegar.
como este aqui.
gostaria de roubar luz.
alguma luz que me desse trilhas,
rumos, ilhas.
mas me contento.
dentro da hora obscura
quando sugam sua mente
quando me deito permanente
e fecho a janela
o brilho estoura
e o que pensava ser preto
torna-se um clarão
eu sei, eu sei
está na hora de partir.
(ao som de Cage + Jan Steele - Experiences Nº1)
—-
Foto: Lara Vasconcelos
Texto: Lucas Benedecti
26.12.2010 - Cidade Solar
Correspondências #2 - Caio
Tua matéria escura, negada Nesse jogo de adivinhar você sempre erra o paradeiro da minha vontade. —- Foto: Caio Paiva (/paivacaio)
Meu mergulho sempre raso.
mãos se encontram. Acidental.
Um segundo, a esperança suspensa. Água-viva.
Se esvazia, linda. dolorosa.
Texto: Lara Vasconcelos (/emquasetudo)
16.12.2010 - Cidade Solar